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Além das jogadoras: Profissionais no Futebol Feminino

Atualizado: Fev 1



Desde o começo deste ano, com a obrigatoriedade imposta pela CBF, todos os clubes da Série A do futebol nacional passaram a contar com equipes femininas profissionais e de base. A decisão da entidade é um grande impulso para a modalidade, que agora conta com duas divisões bem organizadas no Campeonato Brasileiro. Entretanto, no futebol feminino ainda existe uma grande disparidade na participação de homens e mulheres nas mais diversas funções, sendo poucas as instituições que percebem a importância das mulheres também nas comissões técnicas, diretorias e arbitragem.


Como primeiro ponto, cabe analisar as funções da equipe que lidam diretamente e estão presentes no dia a dia das atletas: a comissão técnica. Conferindo a súmula dos jogos da primeira rodada do Campeonato Brasileiro 2019, nota-se que a função em que mais possui mulheres participando, é a de fisioterapuata, com 28,6%, sendo que, dentre os 16 times, apenas 7 possuem fisioterapautas em sua comissão. No caso de técnicos, aqueles que efetivamente comandam o time e têm a “palavra final” para a tomada de decisões, a participação feminina se resume 2 dentre os 14 times que estavam com um técnico efetivo no banco de reservas na rodada de estreia.


Comissões Técnicas, 1ª Rodada Brasileirão 2019


De modo geral, analisando as súmulas da rodada em questão, apenas 14 dos 79 profissionais da comissão técnica dos clubes da primeira divisão do Campeonato Brasileiro são mulheres, um dado que representa 17,7% dos cargos ocupados. Importante ressaltar também que 7 dos 16 times da Série A, não apresentaram, na súmula da 1º rodada, mulheres em sua comissão técnica. A participação irrisória fica ainda mais evidente quando observamos os membros da comissão técnica da Seleção Brasileira de Futebol que, de nove pessoas entre o diretor de seleção, técnicos e demais membros, apenas uma é mulher.


Além de não contribuir influenciando positivamente na proporção entre sexos na comissão técnica da seleção, a CBF segue não demonstrando, na prática, a atenção necessária para isso nas escalações de equipes de arbitragem no Brasileirão. Tomando como exemplo a sexta rodada do torneio, pode-se notar que em apenas uma partida a maioria das autoridades em campo eram mulheres. Somado a isso, a função de analista de arbitragem foi exercida por homens em todos os confrontos. A função mais ocupada por mulheres é a de bandeirinha. As assistentes, inclusive, são as únicas que atualmente são mais vistas em partidas de campeonatos masculinos.


Visando melhorar a presença feminina também em partidas entre homens, em abril deste ano, a CBF realizou o primeiro curso regional exclusivo para arbitragem feminina, com grande apoio das federações. De acordo com os aplicadores do curso, as mulheres interessadas na área se preocupam muito mais em alcançar a forma física requisitada pela entidade e não se preocupam tanto com a parte teórica. O objetivo do curso é justamente igualar esse dois pontos essenciais para árbitros no geral, que as mulheres fiquem por dentro também dos atributos técnicos e tenham mais facilidade em conseguir a aprovação da CBF.


Comissão de Arbitragem, 6ª Rodada Brasileirão 2019


Como se imagina, as diretorias também refletem o preconceito instalado no esporte como um todo. Dificilmente mulheres são contratadas para ocupar bons cargos em equipes nacionais e, em alguns clubes, a diretoria e o conselho chegam a ser integralmente compostos por homens. Porém, existem exemplos, mesmo que poucos, de mulheres gerindo instituições no Brasil. Entre eles está Edna Murad, vice-presidente do Corinthians, que desde 2018 é braço direito de Andrés Sanchez na diretoria do clube paulista. Além de sua imagem representar muitas conquistas no cargo que ocupa, ela tem um forte posicionamento em relação à abertura de oportunidades para mulheres em diretorias de futebol, ressaltando, sempre que tem oportunidade, os obstáculos que encontra em um ambiente tão machista.


Outra inspiração é a trajetória de Myrian Fortuna, atual presidente do Tupi-MG, que desde 2013 superou muitas dificuldades, inclusive pressões contrárias de dentro de sua família, e logrou realizar grandes temporadas com o tradicional clube mineiro. Foi em sua gestão que a equipe chegou pela primeira vez à segunda divisão do Brasileirão na era dos pontos corridos, ganhando a vaga com a ótima campanha que resultou na terceira colocação do Tupi na Série C de 2015.


E os bons exemplos não param por aí. Aline Pellegrino, ex-zagueira do Santos e da Seleção, decidiu traçar caminho pela gestão após se aposentar. Se formou em educação física, chegou a ser treinadora, foi supervisora da equipe feminina do Corinthians/Audax por um tempo e, agora, é diretora da Federação Paulista de Futebol, cuidando do Departamento de Atletas e Competições.


A FIFA, em conjunto com diversas federações, planejou no ano passado diversas estratégias que virão a impulsionar a modalidade feminina e, entre elas, uma estava ligada diretamente com a igualdade nas posições de poder. Dentro da gestão, a ideia é que se crie melhores estruturas para expandir e aumentar a capacitação de profissionais interessadas. Somado a isso, a Federação Internacional definiu a meta de que, pelo menos, um terço de seu comitê de membros seja composto por mulheres até 2022. Outra novidade também foi a criação do Programa de Desenvolvimento de Lideranças Femininas em parceria com a UEFA. O principal objetivo do curso é reunir mulheres de todo o mundo para discutir sobre a participação das mulheres nos grandes cargos do futebol e acompanhá-las em diversos projetos para a evolução da modalidade.


Participantes do Programa de Desenvolvimento de Lideranças Femininas, da FIFA e UEFA, em dezembro de 2018


Como foi visto, os homens ainda dominam a organização do futebol feminino em todos os sentidos, e certamente a evolução da modalidade ocorrerá apenas quando houverem mudanças também fora das quatro linhas. Isso é, mulheres também devem ser incentivadas e qualificadas pelas entidades, desde federações estaduais até a FIFA, o que aumentaria a demanda feminina por essas vagas. Por isso é importante dar voz e oportunidades a todas que se interessarem e quiserem contribuir com o esporte, seja jogando, apitando, auxiliando, comandando ou gerindo. Colocando isso em prática, a mentalidade de que o futebol também é para as mulheres certamente se tornará mais popular, quebrando o ideal retrógrado de que o esporte está ligado apenas a um determinado grupo. Afinal, o futebol é de todas e todos.

Por Guilherme Kiel e Pedro Arantes. Maio, 2019.




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