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Money Fights: O Novo Mercado Dentro dos Esportes de Combate

Por mais que você não faça parte do mundo das artes marciais, é muito provável que já tenha escutado os seguintes nomes: Conor McGregor e Floyd Mayweather. Mesmo sendo atletas de modalidades diferentes, estes são, atualmente, os esportistas de combate com maiores bolsas (remuneração), seja no MMA ou no boxe. Não é novidade para ninguém que a nobre arte proporciona maiores pagamentos aos seus atletas do que o MMA, e até mesmo que o UFC. Enquanto os contratados de Dana White embolsam em média menos de um milhão de dólares para estrelar um card principal, os atletas de boxe estão mais habituados a levarem bolsas de sete dígitos para realização de seus eventos. Essa discrepância entre as bolsas nas duas modalidades esportivas reacendeu o debate da remuneração dos lutadores e introduziu um novo mercado que inclui até youtubers: as money fights.


Recentemente, declarações de atletas do UFC exemplificaram esta grande insatisfação dos lutadores com a postura de Dana White (presidente da organização) em relação ao pagamento dos mesmos. Estes alegam que o pagamento do Ultimate aos seus atletas chega a ser algo irrisório, mostrando descaso e desvalorização aos mesmos. Nomes relevantes da organização como Jon Jones e Jorge Masvidal, além dos brasileiros José Aldo e Paulo Borrachinha (este último que recentemente recusou uma luta por baixa remuneração) são alguns exemplos desse atrito debate que perdura por anos e anos.


O PROBLEMA:


Mas por que isso acontece? Por que o Ultimate Fighting Championship, maior organização de MMA do planeta, não provê bolsas aos seus atletas proporcionais ao dinheiro levantado pela WME-IMG (grupo proprietário do Ultimate)? A resposta é simples: o grupo de entretenimento junto com a Zuffa (ex-proprietária do UFC) deu vida ao maior evento de artes marciais do mundo. Por mais que existam organizações concorrentes como o Bellator ou StrikeForce (pertencente ao UFC) o Ultimate tornou-se algo tão grande no meio do esporte que hoje os melhores do mundo encontram-se sob contrato do UFC. A devastadora maioria de lutadores hoje almeja alcançar uma vaga na organização, independentemente se estes fazem sucesso ou não em outros eventos, como por exemplo Michael Chandler. Peso leve e ex-campeão do Bellator, na primeira oportunidade assinou contrato para tornar-se um comandado de Dana White. Este por exemplo não é o cenário do boxe, onde as organizações são mais pulverizadas, fazendo com que os lutadores sejam os principais atores da modalidade, não uma única organização, deixando assim viva a competição entre os eventos.


Ou seja, podemos dizer que a proporção obtida pelo sucesso do UFC, seja no comando dos irmãos Fertitta e Dana White ou do grupo WME também com Dana White, permite que a organização trabalhe com pagamentos não condizentes com a verba gerada pela máquina de entretenimento chamada UFC. Isso porque, dado seu tamanho, a grande maioria dos atletas neste esporte almeja fazer parte do plantel da organização, por mais que seus pagamentos não sejam altos como os do boxe, por exemplo. Com isso, é de certa forma confortável para a empresa destinar apenas 20% de seus ganhos aos seus contratados.


Essa discrepância entre pagamentos e renda fica ainda mais evidente quando comparamos a bolsa do atual campeão linear “meio-médio” no UFC, Kamaru Usman com a bolsa tanto de Tyson Fury quanto Deontay Wilder para a realização da trilogia no boxe neste último final de semana. Enquanto a dupla de pugilistas embolsou 25 milhões de dólares cada, Usman recebe uma bolsa fixa de 500 mil dólares. Se somados todos os bônus de luta da noite, o evento que coroou Usman como campeão dos meio-médios rendeu ao lutador apenas 750 mil dólares.


Vale lembrar que nem todo dinheiro fica com o atleta. Além de custos com impostos, estes ainda devem pagar toda uma comissão técnica, academia, empresários e toda preparação para a luta. Ou seja, no final das contas pouca parte desse dinheiro é realmente embolsado pelos lutadores, deixando com que estes fiquem em posições de desvantagem se comparado ao Ultimate ou até mesmo lutadores de boxe. Ainda citando Kamaru Usman, este recentemente disse em entrevista que teve de pegar dinheiro emprestado para poder realizar sua preparação para lutas, mesmo sendo campeão linear dos meio-médios. Outro exemplo em números absolutos é o de Cyril Gane: na luta em que este foi coroado como campeão interino na divisão dos pesados, o francês, que receberia uma bolsa de 350 mil dólares (um valor consideravelmente baixo), após descontos, viu seu pagamento despencar para “apenas” 180 mil dólares.



CONOR MCGREGOR: O REVOLUCIONÁRIO


Não o melhor, mas um dos maiores e certamente a maior estrela que já passou pelo UFC se chama Conor McGregor. Com todo seu estilo falastrão, Conor foi um dos primeiros lutadores a alcançar os sete dígitos em suas bolsas no UFC. Mas qual a explicação para isso? Fácil: Conor McGregor é o lutador mais rentável para o Ultimate. Pode-se dizer hoje que Conor recebe tanto dinheiro quanto gera.


O estilo “showman” do irlandês o garantiu além de (muito) retorno financeiro, um espaço fixo na mídia, e não apenas no MMA. Com polêmicas, declarações e correspondência dentro do Octógono, este conseguiu juntar em uma pessoa o que outros não conseguiam. Enquanto Chael Sonnen muito falava mas pouco entregava no octógono, Anderson Silva e George St-Pierre muito entregavam e pouco falavam, Conor McGregor soube como poucos no mundo do MMA promover suas lutas e ainda assim entregar um alto nível de combate, assim como o prometido.


Logo, era de se esperar que o “Notorious”, como é conhecido McGregor fosse o detentor da maior bolsa recebida por um lutador do UFC. Apesar disso, é da personalidade do irlandês continuar explorando sua imagem em busca de fama, notoriedade e principalmente dinheiro. Foi dessa forma que McGregor, em 2017, tornou-se pioneiro em uma iniciativa que hoje se tornou tendência e motivou inclusive a produção desse texto: o crossover entre lutadores de boxe e MMA lutando por fama, mídia, entretenimento e é claro, por dinheiro.


No ano de 2015, McGregor, com sua forma natural de provocações, iniciou as afrontas à Floyd Mayweather, um dos maiores pugilistas da história. Após quase dois anos de muita provocação, mídia e dinheiro envolvida, ambos assinam contrato para uma luta de boxe, na qual ambos levariam uma histórica bolsa. Apesar de valores absolutos não serem precisos, é sabido que Floyd ficou com 100 milhões de dólares, enquanto McGregor levou aproximadamente uma remuneração na casa dos 30 milhões, valores estes apenas provenientes das bolsas e algo nunca antes visto para um lutador de MMA. Válido lembrar que estes valores não incluem cota de promoção da luta, pay-per-view dentre outras variáveis, o que aumenta ainda mais os ganhos de ambos os lutadores. A tendência tinha sido criada.


JAKE, THE PROBLEM CHILD, PAUL: DE YOUTUBER A LUTADOR


Com Conor McGregor tendo feito escola sobre trash talking e principalmente sobre autopromoção de suas lutas, seu legado foi muito bem compreendido e colocado em prática por alguém até então estranho para os esportes de combate. O ex “garoto Disney”, como era chamado por alguns, youtuber e celebridade norte-americana resolveu entrar de cabeça no mundo das lutas, e com apenas 3 anos de treinamento conseguiu atrair a atenção de gente grande no esporte.


Após enfrentar outro youtuber em um evento de boxe organizado pelo também influenciador e youtuber Logan Paul, irmão de Jake, o “garoto problema” mais do que ninguém aprendeu a dançar conforme a música nos esportes de combate. O aspirante à Conor McGregor, amigo de rappers, polêmico, milionário e influente jovem da Califórnia criou uma narrativa de destronar lutadores de MMA, mostrando seu valor na nobre arte. Foi assim então que Jake Paul percebeu que uma boa história, carisma e dinheiro na maioria das vezes supera a técnica e vende muito mais dentro dos esportes de combate. Com pouco tempo de casa, o garoto, mesmo desafiando lutadores de menor expressão dentro do UFC, conseguiu chamar a atenção de “gente grande”, como o ex-lutador Daniel Cormier, o extremamente popular Nate Diaz e principalmente o chefão Dana White.


Jake ofereceu seu primeiro combate contra um lutador profissional para Ben Askren, ex-lutador de MMA conhecido pela sua péssima trocação no boxe. Mesmo com Dana White garantindo Freddie Roach, treinador de Manny Pacquiao (um dos maiores pugilistas dessa geração), para treinar Askren, Jake Paul nocauteou seu oponente em pouco mais de um minuto de combate. Com isso, tanto o garoto problema quanto Askren levaram uma bolada de pouco mais de um milhão de dólares para casa, sendo essa disparadamente a maior bolsa recebida por Ben Askren em toda sua carreira no MMA.


Se engana quem acha que Jake parou por aí. Logo após sua vitória, Paul fez um novo desafio, desta vez destinado para Tyron Woodley, ex-campeão dos meio-médios no UFC. Dessa vez, as provocações entre Jake e Woodley foram mais assertivas, com promessas de tatuagens, ofensas gratuitas e tudo que a escola Conor McGregor de entretenimento foi capaz de ensinar ao garoto. Mais uma vitória de Jake, dessa vez por decisão dos juízes e mais uma bolada para ambos. Cada um recebeu uma bolsa de 2 milhões de dólares apenas para subir no ringue. Novamente, nenhuma bolsa de Woodley no MMA foi capaz de chegar perto destas cifras. Paul, provando mais uma vez que entendeu melhor do que muitos que ali já estão como funciona o meio dos esportes de combate, fortalece cada vez mais sua narrativa e atrai cada vez mais “curiosos” para acompanhar sua jornada. Sejam eles entusiastas dos esportes de combate, fãs de MMA que só querem ver o fracasso de Jake ou até mesmo fãs que o próprio youtuber conquistou durante sua trajetória, seja no boxe ou somente no entretenimento. E se engana quem pensa que Paul não é um real incômodo para o monopólio do UFC nos esportes de combate. Recentemente, inspirado pelas super lutas de boxe encabeçadas por Jake Paul, o “careca” como é carinhosamente conhecido Dana White tratou de vetar uma possível luta de boxe de seu ex- contratado e um dos maiores lutadores de todos os tempos, George St-Pierre.


E OS VETERANOS?


Está errado também quem acredita que os veteranos do UFC se aposentaram tranquilamente e continuariam fora do “game”, logo agora que os vencimentos dos lutadores que se aventuram nas money fights aumentaram exponencialmente. Encabeçado por Vitor Belfort, o projeto da “Liga das Lendas” tomou corpo e é algo que também chamou a atenção recentemente dentro dos esportes de combate. Antes confirmado para enfrentar a lenda do boxe Oscar De La Hoya, o golden boy, Belfort acabou entrando em uma “luta” contra o veteraníssimo e lendário Evander Holyfield, de 58 anos.


Além de Belfort, outro brasileiro ex-campeão do UFC, este conhecido como um dos maiores de todos os tempos, Anderson, The Spider, Silva é outro que se aventurou com sucesso no boxe. Anderson, com duas lutas contra os lendários Julio César Chavez Jr (ex campeão no boxe) e Tito Ortiz (ex campeão no UFC) conseguiu lucrar mais dinheiro do que em metade de sua carreira (por luta) fazendo aproximadamente 600 mil dólares por luta.


CONCLUSÃO


À luz do exposto, pode-se concluir que a insatisfação dos lutadores do UFC tem fundamento, visto que o Ultimate reserva apenas 20% de seus ganhos para pagamento de seus atletas tem sim fundamento, mesmo que não existisse uma perspectiva de mudança por conta do monopólio da organização presidida por Dana White dentro do MMA. Entretanto, com a personalidade de Conor McGregor que foi capaz de elevar a autopromoção e o entretenimento para níveis nunca vistos na indústria do MMA. Com isso, as cifras aumentaram, principalmente para Conor. Além disso, ao quebrar a barreira do crossover entre boxe e MMA, McGregor permitiu a meteórica ascensão de Jake Paul, youtuber e celebridade que comanda uma nova forma de negócio no meio das lutas, focada no dinheiro, marketing e autopromoção, que interessou atuais integrantes do UFC, ex lutadores da companhia e preocupa até mesmo Dana White.


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